Vida privada e democracia

O que a vida privada teria a ver com a democracia? Foi lendo um post de Xavier de la Porte, de France Culture, que comecei a juntar as peças do quebra cabeças que vivemos hoje em dia formado por termos como “big data”, “Google”, “Facebook” e “interesses comerciais” . No post, Xavier replica a reflexão que o pesquisador Evgeny Morozov fez em um artigo da revista do MIT, a Technology Review, onde fala do que seria o real problema da privacidade.

Para Morozov, repetindo o que Xavier aponta, as questões ligadas à espionagem – tão em voga hoje por causa do caso Snowden -, de vigilância e de atentado à vida privada não começaram, como se pode pensar, através das escutas da Agência Nacional de Segurança (NSA), elas seriam inerentes ao surgimento da informática. E aqui é interessante porque Morozov aponta um ensaio de 1967, de Paul Baran, um dos pais do método de transmissão de dados conhecido como comutação de pacotes, intitulado “The Future Computer Utility”  onde Baran já se antecipava sobre os problemas que a informática iria causar à vida privada, isso antes mesmo da existência da Internet e dos computadores pessoais.

O que tem a ver fazer compras pela Internet ou pagar contas através do telefone portátil com a democracia?

Os interesses comerciais de companhias de tecnologia e as políticas de interesse de agências governamentais convergiram: ambas estão interessadas na coleta e rápida análise de dados. Eles podem prever o comportamento dos internautas, saber como gastam seu dinheiro, se declaram seus impostos corretamente, ou se os indivíduos estão cuidando corretamente de sua saúde.

Essa lógica tem a ver com o modo com que se luta hoje contra o terrorismo: prever e impedir o ato antes de lidar com sua consequência. Porque é o algoritmo que decide, por exemplo, que comportamento ou que indivíduo vai ser considerado como de risco, sem que se saiba como exatamente o resultado foi obtido.  Esse fenômeno foi chamado de “regulação algorítmica” por Tim O’Reilly. Isso se dá quando os governos, graças às informações coletadas, querem resolver os problemas públicos sem ter que se explicar ou se justificar aos seus cidadãos.

Morozov defende a ideia de que a vida privada não é sempre agente da democracia, que o excesso de vida privada pode também ser um obstáculo para a democracia quando a informação compartilhada não é suficiente para garantir um comum.

Morozov propõe três vias para politizar o comum:

  • politizar a questão da vida privada : ser ao mesmo tempo muito vigilante sobre o caráter antidemocrático da coleta de dados mas também correr mais riscos, ser mais audaz em nome de uma democracia que seja verdadeiramente viva ;
  • aprender a sabotar o sistema : recusar a se registrar, fazer uma espécie de boicote informacional ;
  • é preciso haver mais serviços digitais provocativos: serviços que nos mostrem as consequências de nossos atos digitais. É preciso politizar as interfaces.

Para saber mais:

The Future Computer Utility (PDF, em inglês)

The Real Privacy Problem, de Evgeny Morozov

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